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Agnese

A Magó,

As lembranças se amontoam, a vontade seria de ter tudo claro e límpido, dar vida a cada particular, a cada momento, mas com certeza em 2017 a atenção não era tão alta, porque nunca teria imaginado que pudesse acontecer algo com a Magó. A essa mulher poderosíssima nunca teria associado nada diferente da vida e provavelmente a nenhuma outra amiga, porque até dois meses atrás as injustiças não tinham me tocado tão de perto. Mas sou muito feliz e grata à Maurício e Daisa por ter proposto esse jeito de fazer viver a Magó. 

Não lembro muito bem as datas, mas com certeza era o 2017 e era verão ou primavere, um dia qualquer, em Bolonha, em que a galera se junta no parque “Giardini Margherita” para mexer os corpos. Eu e Auro tínhamos começado há pouco tempo a fazer circo, mas já estavamos perdidos nesse mondo mágico e cativados por cada sua forma de expressão. Esse dia é o que eu lembro melhor. Como sempre, nós fomos ao parque “Giardini Margherita” e vímos a Magó, de longe, que dançava, fazia acrobática, que na verdade era uma mistura de danças e movimentos diferentes, muito parecido com a acrodança, disciplina que nós amávamos muito mas ninguém ensinava em Bolonha. Ficamos lá, extasiados vendo aquela mulher. 

Bastaram poucos minutos para chegar próximos, perguntar-lhe o que estava fazendo, de onde era, quem era. Eu acho que a amei logo, era fascinante e com uma grande expansividade. Pouco depois nós tínhamos convidado ela na nossa casa, tínhamos duas bikes e a casa ficava bastante longe. Então como podíamos ir? Eu peguei a minha bike e a Magó carregou o Auro na dela. Andávamos por Bolonha e todos olhavam estranhados essa mulher que carregava um homem na bicicleta. Estamos numa sociedade velha e machista infelizmente. Magó não falava ainda muito bem italiano, mas conseguia se comunicar e nós contou de tudo, di Ana Clara, do que ela fazia, do Brasil e da família dela. E aquela noite resolvemos ir numa festa em Bolonha, aonde vi tudo que a Magó era, se pendurava nos postes, girava, dançava sozinha, com um jeito tão longe do nosso, com uma energia mágica, nós conhecíamos há 4 horas e estávamos bem como se nós conhecessemos desde sempre. Depois chegou a Ana e aí nós nos conhecemos todos. Daí começou a amizade. 

Eu era com certeza mais nova que ela, ainda à procura de mim mesma, do que fazer, de quem ser. Magó foi uma passagem importantíssima na minha vida, nela, desde a primeira noite, vi uma liberdade diferente, pessoal, era dela e de ninguém, ela a compartilhava de um jeito maravilhoso, mas ela bastava à si mesma, com os seus ideais, a sua espiritualidade e a sua dança. Isso nunca vou esquecer e um outro lado que levarei dentro de mim pra sempre era o amor que ela tinha para todos, mesmo se fossem diferentes dela e tivessem comportamentos com que ela não concordava. Ela era sem julgamento, tinha os olhos de quem acolhe e compreende, sem nenhum tipo de superioridade, apesar da força interior elevadissima que ela tinha. 

Essas são coisas que nunca esquecerei, o verão seguiu assim, estando juntas e trocando muitas cosas, do movimento do corpo até altas reflexões sobre a vida, os sonhos, sobre o que queríamos fazer, aonde queríamos viver, como queríamos viver. Nós imaginávamos uma casa no mato pra viver todo mundo junto, cheia de arte, sabendo que eu estava na Itália e ela teria voltado pro Brasil, mas sonhar juntas era muito bom. Sempre mais se criava uma conexão nova pra mim, era a primeira mulher com quem eu conseguisse ligar tanto assim, mesmo se nós conhecíamos há pouco tempo. Ela via em mim algo que nem eu conseguia ver, tinha uma linguagem mais profunda atrás das nossas palavras. 

Um outro momento que lembro bem foi quando fomos viajar em Marche, uma região da Itália, eu, Auro, Ana Clara e Magó. Viajamos de carro todo mundo junto para ir visitar os amigos que fazem arte de rua. Eu era feliz de mostrar aquela cultura italiana, da arte de rua, dos bagunceiros, do ganhar o pão de qualquer jeito. Passamos o dia 15 de Agosto (dia de festa da Itália) todo mundo junto cercado por piruas, cozinhando e dançando em volta da fogueira. Depois disso fomos em outros vilarejos do interior pra dançar, conversar, tocar, e terminamos as ferias numa maravilhosa lagoa. 

Pouco depois a Magó foi se juntar com a Ana Clara que tinha ido estudar na Sicilia, pelo menos eu acho, os periodos se confundem. Ah agora lembro, um certo momento ela tinha ido procurar as suas origens no Veneto, e tinha voltado muito feliz, por ter conhecido um parente, enfim ela tinha vivido essa belíssima viajem no passado. 

Voltando da Sicilia a Magó veio viver conosco durante 2 ou 3 meses, e aí passamos muito tempo juntas, eu tinha uma cama de casal e nós dormíamos juntas, os momentos de compartilhamento ficaram muito mais plenos e profundos. Lembro que nos brincávamos de dormir de conchinha, passamos muito mais tempo juntas e teve o “Città di Circo”, um grande festival dos circos contemporâneos em Bolonha, e por duas semanas ficamos sempre lá. E acho que a Magó se apaixonou definitivamente do circo, dos músicos, do jeito deles de viver. 

Lembro que ela estendeu a permanência na Itália pra terminar os documentos para a cidadania. Um certo momento sentiu a necessidade de voltar e nós nos despedimos. Ela deixou uma carta e um colar de crochê pra cada um que morava na Casa Spelonca (o nome da nossa casa), e nós deu un livro. 

Naqueles meses essa relação foi pra mim muito importante e muito forte, nós nos escrevemos. Depois, como as vezes acontece pela distância, nós distanciamos mas só com as palavras, ela fica sempre dentro de mim. Eu soube desde sempre que teria sido uma amizade pra sempre, mesmo se não tivessemos conseguido nos encontrar. 

Mesmo assim, a vontade tava lá, começei uma relação com o Robi e o convenci, sem muita dificuldade, a ir no Brasil em 2019. E ainda nós agradecemos para a recepção da família toda, foi uma viajem maravilhosa. Ainda hoje me pergunto dos significados dessa viajem, e conseguimos ver a Magó dançar e como sempre ela nós fez chorar. Agradeço demais para o seu espetáculo, para ter visto ela dançar, ela me ensinou muito também sobre o que é arta, que nível de sensibilidade se pode alcançar, qual é o objetivo, a verdade dos sentimentos e a sua pureza. 

Fico repensando em todos os lugares que nós visitamos e porque nós acabamos indo nesses lugares. Tudo o que é relacionado com a Magó, pra mim fica rodeado de magia. 

Quero escrever essa coisa mágica, que conteri pra Ana e ficou muito poderosa. 

Quando fomos na cachoeira de Mandaguarí em 2019, enquanto estávamos todos sentados na grama, eu, Magó, Ana e Rob, tinha essa borboleta que se posou em mim, provavelmente vocês conhecem ela, uma borboleta básicamente branca, com desenhos pretos e algumas manchas vermelhas, eu a olhava encantada, fotografei ela e enquanto íamos embora da cachoeira de carro falei pro Robi que se tivesse que fazer uma tatuagem, faria aquela borboleta. 

Um dia, algumas semanas atrás, nós estávamos na frente de uma fogueira e eu estava pensando na Magó e na madeira surgiu primeiro um coração no interno que queimava e depois a imagem de um jacaré, não sei, mexeu comigo essa coisa. Tinha a necessidade se falar com alguém próximo a Magó, escrevi pra Ana, pra perguntar como estava, pra dar um oi. E por acaso mandei pra ela a foto da borboleta da cachoeira em 2019 e perguntei se ela lembrava daquela borboleta. Ela mandou a foto da sua tatuagem, era a mesma, e me contou da importância dessa borboleta, que se posou nela enquanto procurava a Magó dois meses atrás e que ela se tatuou. 

Isso rende tudo ainda mas potente pra mim e me enche de perguntas, sobre o que aquela borboleta queria dizer um ano atrás, mas tirando todas as perguntas, criou uma conexão ainda maior, Magó está perto, ela está aqui conosco. 

Não sei o que os seres humanos tem dentro, sempre fui rodeada por uma família e muitos amigos, homens e mulheres, lindíssimos, sábios e respeitosos. Mas sempre mais aparecem na minha vida as violências que acontecem a pessoas próximas e sempre mais essas violências escavam na humanidade.

Aquela manhã em que acordei e achei a Gaia na sala que me falava transtornada, sem entender, acho que a Magó faleceu, um pedaço quebrou. Como posso aceitar uma coisa dessa? Não sei, nunca vou esquecer aquele dia, aqueles olhares, aquelas lagrimas. Quando entendemos como ela se foi, tudo se rachou, toda a confiança, todo o amor para o ser humano. Surgiram sentimentos maiores, escondidos. E a incompreensibilidade de uma ideia que não conseguia aceitar, grande demais, injusta. 

Queria estar aí com vocês, porque a dor era tanta e aqui não era igual para todos. Foram semanas dificilíssimas, a vida seguia, aqui não todos tinham tido uma conexão tão forte com ela, queria que tudo parasse e que todos os dias fossem dedicados à ela. 

O movimento que vocês iniciaram, me ajudou muito, só não conseguia aceitar, tinha um tijolo muito pesado dentro de mim. Aquele dia na praça em Bolonha foi uma união incrível. Única. Forte. Para tod*s. Desde quem a conhecia até quem nunca tinha visto ela.

As artes pegaram a praça, o conto trouxe a Magó no coração de tod*s, a potência dos corpos e das almas levaram tod*s a conhecé-la. 200 pessoas ficaram lá no frio durante 3 horas escutando com uma sensibilidade única e muitos del*s não a conheciam. Chegaram muitas pessoas no final do dia agradecendo e falando: “Mesmo não conhecendo ela, pareceu que a conhecemos desde sempre”. Tudo acabou com um grande samba coletivo, cheio de energia e vontade de mudar. Ela era isso e consegue criar isso mesmo agora, nos olhando de um outro lugar. 

Então obrigada, obrigada e obrigada por ter incentivado essa luta. 

A única coisa que soube logo é que a violência que a Magó sofreu, deixou ela na terra, ela é um ser da natureza, pura. Os seres tão violentos não podem escoriar nem um milímetro as almas puras. Ela era pure em tudo. E quando ela se foi com certeza deixou toda a merda do mundo ao mundo. E é aqui conosco, a cada passo, nos amando e nos suportando. 

Eu a agradeço por ter decidido de fazer parte da minha vida e apesar de que o tempo juntas não foi muito, ela trouxe muitas coisas dentro do meu ser no mundo. 

Imagino que vocês vão ler, então eu e o Roberto cumprimentamos muito Daisa e Maurício, vocês são fortes, como pais e como almas, o desafio é muito difícil e injusto. Mas na umanidade tem uma potência que nessas situações surge e nos supreende. Amamos vocês muito e mesmo não estando lá fisicamente, nos estamos lá nos pensamentos e estamos próximos. Fico muito feliz por ter encontrado e conhecido vocês. Espero revé-l*s logo. 

Deixo aqui algo que escrevi por ela:

Gotas que descem numa terra sem sonhos

Ritmos ancestrais que movimentam seu caminho

Atravessa sonhos de povos e histórias distantes

Corpo que conversa com as cascatas, que lê linguagem escondidas

Seguindo um coração que é grande demais para a nossa história.

E se a terra te quer por ela, sem te deixar gritar

Que fique em nós esta liberdade, esta dança que mudou as nossas vidas,

Que tu miga, continue vivendo em cada escolha nossa, em cada batida do nosso coração,

Em cada nossa ação artística, em cada nossa batida de vento.

Escolheram tirar o respiro de uma alma muito mais forte que eles e nós viraremos o pandeiro

Entre suas mãos.

Por Agnese – originalmente em italiano, traduzido amorosamente para o português.

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