Mayara Blasi
Obrigada, Magó! eu compartilhava com a Magó uma das minhas únicas certezas: a de que é preciso se manter em estado de brincar, nossa criança sempre viva, nossa capacidade de espanto reflorestada a cada dia. (a gente brincava muito, e isso a gente levava a sério.) .
Sei dela pela sua vontade de vida, pelo tanto de si que investia em uma conversa. Ela sobrava em olho, sorriso, careta, parada de mão, sobrava em atenção até distraída a Magó prestava atenção . Sei dela pelo tanto que deixava em uma aula, pela sua generosidade – vocês precisam ver isso que eu aprendi, porque me fez assim, vocês precisam. Tenta Má! A gente precisava mesmo. ela ensinava. a gente ouvia de corpo. ela mostrava e repetia. sempre uma linha-guia, nunca um certo-errado. a gente seguia. . sei dela pela irmandade, o outro sempre grande pro seu olho, o novo sempre perto e possível, o difícil… que que é difícil mesmo?
– eu li, eu vi, não sei ainda, vamos testar! o que vocês acham se, isso! investe nisso! a gente testava junto e crescia. (a magó se emocionava quando a dança chegava na gente de corpo-todo).
sei muito dela porque ela não se guardava pra quando o carnaval chegar, ela dividia. ela precisava dividir a existência dela contigo, porque era grande e era tão, mas TÃO grande que exabundava (eu só usei essa palavra aqui pq ela ia achar graça) .
ela me ensinou que pelo corpo a gente acha palavra. e acha mesmo. foi com ela que aumentei meu vocabulário de corpo-existência. – é aí q vc mora. é aí q estão seus sentimentos amor raiva alegria silêncio tristeza desejo música medo apelo é aí que você se mora. .
– a dança tá aqui pra te mostrar o tudo que você pode ser pelo corpo, por isso dança, dança, insiste! isso que te freia é só medo, vergonha tb é medo, tô aqui. vamo de novo? eu ia de novo e nunca vou esquecer disso. (tenho um estoque de fé-em-mim-mesma guardado pra uma vida).
– é em ti que vibra sua força de existência, seu eu mais euzinho seu eu de topete e vestido comprido de flor seu eu de chinelo mesmo, descalço na grama, chupando sorvete seu eu pelado, sem vaidade e vc cheira bem. vc cheira bem até no fim da aula. .
a magó sabia que é preciso ser pr’além desse monstro dentuço que é a sua rotina – o contorno do nosso corpo não é limite, você tem braços e pernas e pés, e tem tb ossos, água, fáscia, pontes, torneirinhas, frestas. você tem um exército de coisas invisíveis a seu favor e precisa descobrir todas elas. você precisa. talvez vc ache algo que eu ainda não achei, investiga! não precisa de força, olha, é jeito. era jeito. . e é jeito. a Magó tinha o jeitinho que só dela, carinho e cuidado, uma presença gigante. era difícil não interromper uma explicação na aula só pra dizer um eu-te-amo-obrigada com um abraço (a gente fazia isso com frequência). .
foi a Magó quem me ensinou a dançar o vazio sem borda do improviso eu mal sabia que precisava disso. . ela também me ensinou a cair, a respeitar o esquisito, a não desmerecer o feio, a rir de mim, a mostrar a língua pra vergonha, dançar sem medo e encarar o pavor de estar sendo olhada. tudo work in progress, muito avanço em cada tentativa, ela cuidava. perto dela era mais fácil. . com ela eu lembrava: a vida não pode ser adiada.
a Magó falava de dentro desse espaço-tempo que acontece em intervalos de agoras, e é 4D! toda vez que ela dava um passo, ela cumpria a letra da música. . se ela tivesse aqui ia querer que você entendesse que o modo como você respira e caminha, o modo como se relaciona, o modo como você ama, tudo isso é dança. se querer vivo tb é dança e vc precisa dançar sua existência. (isso aumenta em muitos porcentos suas chances de se manter são). . carrego ela comigo embaixo do sovaco, atrás da orelha, entre dois dedos do pé esquerdo, na pele de dentro. até que me distraio e num zás ela voa: pra uma nuvem – e fica imitando bicho híbrido, pra marca de chuva na janela, pra asa da borboleta, pro cheiro do café, pro nariz das pessoas que mais amou – foram várias. a magó vai sempre existir assim, esparramada. . se eu pudesse dizer algo pra ela agora seria de novo obrigada.
Por Mayara Blasi
