Ricardo Casarini
“Foi no alto da Serra da Mantiqueira, sul de Minas Gerais, em 2012. Consciência Universal, um festival que reuniu pessoas de diversas regiões do Brasil e também de outros países, em uma fazenda na localidade da Pedra Preta, na cidade de Pouso Alto. Lembro como se fosse hoje, já estávamos ansiosos, reunidos antes de começar o festival, montando toda a estrutura e organizando tudo para a chegada dos participantes. No primeiro dia do encontro, caravanas, grupos e pessoas chegavam de todas as partes, eu estava responsável pela cozinha do evento e no meio daquela correria para preparar o alimento para todos avistei Maria Glória. Saia preta com flores coloridas, uma canga envolvendo seu corpo, um lenço colorido enrolado na cabeça, rosto pintado e se equilibrando graciosa em uma fita de slackline. Aquela cena, cheia de cores e luzes, me encantou, por um instante esqueci as panelas no fogo, os vegetais que ainda precisavam ser descascados e cortados e as misturas de temperos que ainda precisava fazer. Durante alguns minutos não pude fazer mais nada, conseguia apenas olhar para Magó e desfrutar daquele momento de encantamento. O chamado do companheiro de trabalho José me fez voltar a realidade e naquele dia enquanto preparava o almoço da turma não pude deixar de pensar, e sentir a presença daquele ser de luz, que realmente me encantou. Comentei brevemente com José se ele havia visto aquela linda menina se equilibrando na fita e seguimos em nossa missão de alimentar a todos.
O festival, com muita música e arte, foi organizado por um grupo de amigos e contava com a ajuda e colaboração de todos os participantes. Na cozinha a correria era grande, horas e horas de trabalho, com certeza um dos lugares que precisava de muita ajuda. Eu e José, correndo de uma lado para o outro, quase não tínhamos tempo para participar das atividades, tão pouco para conversar com as pessoas e recrutar ajudantes para a nossa missão na cozinha. Pedimos ajuda a Daniel, um dos amigos do festival, que, logo em seguida apareceu na cozinha com um grupo de duas ou três meninas. Para minha surpresa e alegria uma das voluntárias para ajudar na cozinha era justamente aquela linda menina que me encantou se equilibrando na fita. Qual seu nome? perguntei. Maria Glória me respondeu a menina com uma voz firme e determinada. Sem poder conter as palavras afirmei: Você é muito linda! Ela sorriu meio envergonhada e seguimos com o trabalho. Minha filha também se chama Maria…Maria Liberdade. Senti naquele momento que aquele encontro realmente era especial.
A conexão que senti com Maria Glória foi instantânea e realmente especial. Dias de longas conversas, brincadeiras, acroyoga e trocas de carinho. Quando dava uma folguinha na cozinha íamos para um lugarzinho em baixo de uma árvore e ela sempre me pedia para trançar meus cabelos, que são bem compridos, quase na cintura. Foram dias realmente especias, com muito carinho, respeito e admiração.
Maria Glória me trazia inspiração, forte, determinada e ao mesmo tempo leve, doce e sonhadora. Uma menina muito especial.
Depois dos dias de imersão do festival, nossa amizade se fortaleceu a distância. Quando menos esperava recebia uma mensagem: Como você está? Saudades de lhe trançar os cabelos! Como era bom receber aquelas mensagens de Magó! E assim os anos de amizade se passaram e se fortaleceram. Passei acompanhar seu trabalho de bailarina, suas viagens..e ela sempre fazia questão de mandar alguma mensagem compartilhando seus momentos de alegrias e conquistas, e também queria saber sobre os meus. Maria Glória me ensinou a importância de dar atenção para a amizade e se fazer presente, mesmo estando longe.
Muitas vezes ensaiámos nos encontrar, Floripa, São Paulo, Garopaba, mas cada um em sua correria, com tempo apertado…e esse encontro nunca dava certo. Mas para nós, mesmo com a vontade de se ver e de se abraçar, cada mensagem que a gente trocava, cada troca de energia, mesmo a distância, era como se todos esses encontros tivessem acontecido. Eu vibrava cada vez que lia suas mensagens, cada vez que via um video de algum espetáculo, ou mesmo de algum ensaio. Uma das coisas que mais me admirava era ver ela com sua irmã, as duas juntas, quanto amor, quanta conexão, quanta cumplicidade e amizade. Coisa mais linda de viver!
Tenho guardado em meu coração e muito presente em minhas lembranças um dia que estava em casa, em Garopaba/SC, e recebi uma mensagem de uma amiga dizendo que estava em um festival de contato improvisação em Garopaba e que estava indo para minha casa me visitar com uma amiga minha. Ouvi o som de um carro se aproximando, fui para o portão esperar, quando abri para recebe-las me deparei com aquela cabeleira e aquele sorriso encantador. – Não acredito que você está aqui na minha casa! falei. Era Maria Glória entrando portão a dentro e vindo me dar um abraço. E que abraço gostoso, de saudades, de carinho, de respeito e amor. A visita foi breve, a casa estava cheia de amigos dançadores que vieram para almoçar, comemos todos juntos sentados no chão da sala e espalhados pela cozinha e pela varanda. Naquele dia ficamos somente alguns instantes conversando só nós dois, o encontro foi rápido, eles iriam almoçar e voltar para o festival, mas, como em todas vezes, muito especial. Na despedida de Maria Glória, mais um abraço apertado. – Desta vez não deu tempo, mas da próxima vou te trançar os cabelos! Me disse Magó e rimos juntos desfrutando daquele momento de amizade pura e verdadeira…
Com amor e carinho…
#magópresente
Hoje e sempre! Jamais nos esqueceremos!”
Por Ricardo Casarini
